Hoje é dia de visita no 1.003. A dona do apartamento está recebendo um cara e uma criança - deduzo que são pai e filha. Ela é carinhosa com os dois, sorri para a menina, tenta agradar. Mas sinto algo estranho no ar, como se ela não estivesse à vontade. Na hora de ir embora, o cara pára na porta, olha para ela. Os dois desviam o olhar. Um sorriso sem graça é a despedida.
Minha vizinha agora está sozinha. Fica alguns minutos parada, encostada na parede, meio letárgica. Depois, vai andando devagar até o quarto. Todos os movimentos são suaves, como se ela estivesse em transe. Pé ante pé, pega uma caixa no fundo do armário e leva para a sala.
Sentada no tapete, tira uma história de vida de dentro da caixa. Fotos, cartas, papéis amassados que, para nós, simples mortais, não têm significado algum. Para ela, o significa é muito maior agora, depois daquela visita.
Meus olhos indiscretos já estão treinados. A cena é fácil de ser decifrada. O carinha é um ex. Alguém que já fez parte da vida da minha vizinha e que, por algum acidente de percurso, dobrou uma esquina e foi viver outra vida.
O reencontro abalou as estruturas da mulher independente do 1.003. Ao abrir a porta do apartamento para o ex, ela deixou entrar todo um passado. E pior: entrou também a projeção de um futuro que não existiu. Ao brincar com a filha do cara, muito provavelmente, ela embarcou em uma espécie de túnel do tempo e viu naquela menina o rosto da filha que ela não teve.
As visitas foram embora, mas os fantasmas ficaram. Minha vizinha está chorando.
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Que a vida é feita de escolhas, todo mundo sabe. Mas pouca gente sabe lidar com as conseqüências do caminho escolhido. Se as coisas vão bem, está tudo certo - a escolha foi ótima, a sorte está ao nosso lado. Se alguma coisa dá errado, as dúvidas começam a surgir. Será que fiz a escolha certa? O que teria acontecido se eu tivesse feito diferente? Posso voltar atrás?
Não. Não pode. Escolheu, tá escolhido. Mesmo que você se arrependa e volte atrás, o caminho é outro. A história nunca mais vai ser a mesma. Se você termina um namoro e depois volta, com certeza, essa relação não vai ser igual à relação que você teria se não tivesse terminado.
No fundo, todos nós sabemos disso. Mas a nossa tendência é a de martírio. E nos deixamos levar por um sentimento de "eu era feliz e não sabia". Com certeza, a moça do 1.003 está pensando nisso. Mas será que era feliz mesmo? E se era, será que não sabia?
Ei, minha querida vizinha! Passado é bom pra guardar na caixa, dentro do armário. Você sabe que está ali, mas não precisa mexer. E quando estiver angustiada, triste e cheia de fantasias a respeito da vida que você não teve, ligue o rádio e cante. São águas passadas, escolha uma estrada e não olhe pra trás.